Educação Midiática: Uma solução do jornalista para a desinformação na Amazônia

23 de março de 2025

O programa de educação midiática da Amazônia Vox com uma escola em Santa Izabel, Pará, aumentou significativamente o número de leitores do site no município rural. Foto: Marcela Castro (arquivo pessoal)

Na Amazônia, os jornalistas estão entrando na sala de aula.

Enquanto as notícias falsas e a cobertura tendenciosa inundam a região amazônica, veículos independentes iniciaram campanhas ativas para ensinar o público a identificar desinformação, pensar criticamente sobre notícias e encontrar fontes confiáveis.

Referido como educação midiática, o esforço representa uma notável expansão do papel dos jornalistas. Eles não são mais consumidos apenas por relatar as notícias, mas também estão assumindo um papel ativo na construção de um público mais atencioso e engajado. 

A estratégia mostrou-se promissora para restaurar a audiência e reconstruir a confiança em organizações de notícias legítimas que há muito lutam para romper o ataque de notícias falsas na Internet.

“Tinha um problema em Manaus, que era maior do que a falta de veículos. Era a falta de educação midiática”, disse Jullie Pereira, repórter da InfoAmazonia e cofundadora da Abaré, organização de educação midiática em Manaus. “Como é que a gente vai fundar um veículo para publicar notícias especializadas e grandes investigações e grandes denúncias se a gente tem uma população que nem lê, que tem dificuldade de interpretar?”. 

A Abaré cria planos de aula para professores, ministra oficinas em escolas locais e realiza discussões sobre o jornalismo local. A intenção era construir “um caminho de a gente expandir os laços do jornalismo, com um público mais amplo, um público que não necessariamente entende como funciona o jornalismo”, disse Gave Cabral, presidente da organização. 

Iniciativas semelhantes estão ocorrendo em outras partes da Amazônia. A Carta Amazônia, uma agência de notícias independente com sede em Belém, também opera sua própria escola, dando palestras e oficinas de verificação de fatos e desinformação para estudantes em Belém, bem como grupos indígenas da região.

Outro veículo independente em Belém, a Amazônia Vox, já demonstrou o impacto significativo que esse tipo de engajamento com as comunidades locais pode ter para os veículos. Ela executa uma iniciativa na qual os alunos de uma escola rural no Pará editam suas reportagens antes de serem publicadas, expondo os alunos a reportagens legítimas e incentivando-os a pensar criticamente sobre as informações que consomem. O projeto já levou a um enorme aumento no número de leitores da Amazônia Vox no município da escola.

Até mesmo o governo brasileiro tem contribuído para o movimento de educação midiática na Amazônia. No ano passado, anunciou o projeto MídiaCOP, uma parceria com a França para capacitar educadores da região amazônica em educação midiática, com o intuito de preparar um grupo de estudantes para cobrir a COP 30 em Belém como jovens repórteres.

A iniciativa faz parte da meta do governo Lula de capacitar 300 mil professores em educação midiática até 2027.

Cabral disse que o foco da educação midiática não é simplesmente dizer à população quais fontes são confiáveis e quais não são. Em vez disso, o Abaré tenta democratizar a informação, estimulando o pensamento crítico sobre as fontes de informação e dando às pessoas ferramentas para usar suas próprias vozes para combater as narrativas predominantes da mídia.

Esse ponto é crucial para Patricia Blanco, uma das coordenadoras da EducaMídia, uma organização brasileira de educação para a mídia que realiza programas voltados para a Amazônia. Ela disse que o conceito de educação midiática deve ser centrado em torno da inclusão social, ajudando todos a se envolverem criticamente com a sociedade ao seu redor.

A EducaMídia ensina as pessoas como os veículos de notícias funcionam, como encontrar notícias de uma variedade de fontes confiáveis e como fazer sua própria verificação de fatos. Mas, principalmente, o foco está em “ensinar a pensar, ensinar a fazer perguntas”, disse Blanco.

A coordenadora acrescentou que é crucial que os jornalistas e seus veículos participem dessas iniciativas de educação midiática, como alguns estão fazendo na Amazônia. “Jornalistas precisam se engajar neste momento para educar seu leitor sobre o que é jornalismo e o que não é”, disse.

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A educação midiática, como prática e movimento, é ativa em todo o Brasil por meio de organizações nacionais como a EducaMídia. Mas, especificamente na Amazônia, as iniciativas estão focadas no combate a uma peça específica de desinformação: a noção de que, para desenvolver a região economicamente e retirar seus cidadãos da pobreza, a floresta deve ser destruída. 

Essa falsa ideia circula pela região há décadas, promovida pelas corporações mineradoras e do agronegócio e pelos políticos que elas apoiam. Contribuindo para esse discurso estão as notícias falsas desenfreadas, publicadas por sites de notícias conservadores, influenciadores de mídias sociais e políticos, que questionam os dados e as ciências ambientais, difamando grupos indígenas e outros defensores da floresta.

Durante a catástrofe dos últimos anos no território Yanomami, por exemplo, em que centenas de crianças indígenas morreram de fome, doenças e envenenamento por mercúrio como resultado da invasão de garimpeiros ilegais, campanhas de desinformação nas redes sociais duvidaram da crise e ligaram falsamente os Yanomami ao garimpo.

“A desinformação sobre a Amazônia é uma indústria. Ela tem uma razão bem feita, que é tirar toda a força dos movimentos que lutam pela causa da Amazônia, pelas causas ambientais”, disse Cecilia Amorim, cofundadora da Carta Amazônia. “Então a gente precisa combater isso”.

O fato de que a desinformação na Amazônia tem uma intenção antiambiental tão específica por trás significa que campanhas de informação ambiental são necessárias para combatê-la, dizem líderes de educação midiática na Amazônia.

A iniciativa MídiaCOP do governo federal, por exemplo, vincula a educação midiática à educação ambiental. Mariana de Almeida Filizola, coordenadora-geral de educação midiática na Secretaria de Comunicação Social (SECOM) do Brasil, afirmou que a intenção da iniciativa é fornecer às populações amazônidas ferramentas, tanto para se comunicarem, quanto para avaliarem informações sobre os impactos das mudanças climáticas e do desmatamento.

“Todo mundo produz e consome informação ao mesmo tempo. Então, a educação midiática é muito importante para que as populações dessas regiões, especialmente quando falamos de questões que afetam diretamente sua vivência nos territórios, sejam agentes críticos e tenham suas vozes ouvidas”, disse Filizola.

As iniciativas de educação midiática da Abaré possuem um foco ambiental semelhante, especialmente em suas análises de fake news ambiental. “A gente tem uma agenda prioritária que é a defesa da Amazônia”, disse Pereira. “A gente acredita que não é que tem a ver com um lado ou com o outro, mas isso tem a ver com a manutenção e preservação da floresta amazônica que é um interesse do país”.

Mas em cidades conservadoras como Manaus, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu discurso anti-imprensa são extremamente populares, essas discussões podem encontrar resistência. Cabral disse que a estratégia mais eficaz da Abaré tem sido promover discussões abertas em oficinas, em vez de impor um certo discurso.

“Não é chegar e dizer, ‘Ah, vocês não acreditam na imprensa, então é isso aqui que você tem que fazer.’ Mas dá pra fazer esse diálogo e dizer, ‘Por que você não acredita na imprensa?’. E a partir disso pode começar a dialogar e talvez seja um trabalho que demore um pouco mais, mas a gente acredita que seja mais efetivo porque a gente cria um laço de confiança primeiramente entre as pessoas e a Abaré”.

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Talvez o melhor estudo de caso sobre o impacto potencial da educação midiática na Amazônia seja o projeto da Amazônia Vox com uma escola pública em Santa Izabel, um município com muita pobreza na zona rural do Pará. Em parceria com Marcela Castro, professora da escola, o veículo tem suas reportagens lidas e editadas pelos seus alunos antes de serem publicadas. 

A iniciativa, que começou no ano passado, tem como objetivo tornar as matérias da Amazônia Vox mais acessíveis a uma população mais ampla, além de servir como uma oportunidade para ensinar aos alunos como o jornalismo é produzido.

Muitos dos alunos, disse Castro, nunca tinham lido um site de jornalismo antes e consomem conteúdo quase exclusivamente no TikTok. Mas através do projeto, os alunos se tornaram muito mais capazes de ver a diferença entre notícias falsas e reportagens legítimas e confiáveis.

“Quando eles se deparam com o texto… automaticamente eles começam a compreender que o trabalho do jornalista também é lento”, disse Castro. “Eles começam a entender que uma notícia falsa via de regra é escrita com textos um pouco menores, muitos chamativos e um texto mais denso com veracidade tem fontes que são checadas com seus nomes, sobrenomes, dados”.

Mas o projeto também beneficiou significativamente a Amazônia Vox, tornando suas reportagens mais acessíveis e legíveis e ampliando sua audiência entre a população local. Os alunos fizeram inúmeras edições em reportagens da Amazônia Vox que foram incluídas na publicação. Eles sugeriram sinônimos para termos muito técnicos e acrescentaram explicações a conceitos pouco claros, tornando as reportagens compreensíveis para pessoas fora da bolha do jornalismo ambiental. 

“Eles sugeriram que algumas siglas como COP, Funai, OMS fossem elencadas em um glossário para que as pessoas ribeirinhas de lá de Santa Izabel, numa área onde não tem internet, não precisaram pesquisar se elas um dia tiveram acesso a esse texto”, disse Castro.

A Amazônia Vox credita cada um dos alunos pelo nome nas reportagens, o que tem sido motivo de imenso orgulho para os estudantes, a escola e toda a região.

“Foi incrível, porque o alcance da Amazônia Vox no município onde eu fiz esse trabalho, se tornou gigantesco. E os meninos que nunca tinham lido a fundo um site jornalístico, passaram a enviar notícias para os seus familiares e seus colegas”, disse Castro.

Para Castro, o projeto tem sido um modelo de como o jornalismo, por meio de engajamento e educação local, pode deixar sua própria bolha para criar uma ampla audiência e fornecer um jornalismo preciso e influente para ela. “Se o jornalismo quiser se manter relevante para a população, ele vai precisar dialogar com essa população. E uma das iniciativas não é levar o site até a escola, mas quem sabe fazer a escola estar no site”, disse. “O movimento inverso gera o pertencimento, e cria uma audiência, que é algo que o jornalismo carece bastante neste momento".